sábado, 2 de março de 2013

Ilhas de Bruma



 "Eu sou das ilhas de bruma onde as gaivotas vêm beijar a terra".


O verde das pastagens, o azul do mar e do céu, o perfume intenso das hortências,
O chilrear dos pássaros, o som do vento nos fios eléctricos, o marulhar das ondas na rebentação,
O cheiro a maresia, o aroma do verde húmido dos matos, o odor das burrecas encharcadas,
O som da água translúcida que brota da nascente e que se bebe na copa do inhame,
O perfume da flor da cana-roca e do incenso, o odor do sargaço na maré baixa,
O grito das gaivotas em terra quando o mar está bravo ou do garajau que faz voos rasantes sobre nossa cabeça para proteger o seu habitat, o mar ... aquele mar azul e quente que aquece a alma da gente, as plantas que aqui têm cheiro e vida e viço, as flores que aqui se oferecem à nossa amada de forma grátis, os animais selvagens que aqui são mais pacíficos, os picos, os vales, as quedas de água, o ar húmido, a chuva, o sol e o vento, que aqui se mostram num só dia ... 
São assim os Açores; é assim a minha terra, a ilha das Flores.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Caos Após o 25 de Abril de 1974



Não gosto de política. Mas se a relação do Homem em sociedade é ela um acto político, não há como recusar que também eu faço política. Enfim... Deixemos para lá a filosofia. Quando despertei para as consequências de Abril, achava que com tanta liberdade, agora sim é que era. De início vieram os sucessivos governos provisórios; alguns deles duraram apenas alguns dias, depois, a coisa entrou nos eixos e lá tivemos o primeiro governo estável. Mas mal começaram esses governos ditos estáveis, eis que ouvimos falar em austeridade.
Creio que, se a memória não me falha - e já vai falhando alguma coisa -, o precursor terá sido o ainda pouco senil Mário Soares, que nos terá iniciado na mendicidade. Depois mais outra vez nos ajoelhamos aos pés dos países ricos da Europa, porque já tínhamos começado a gastar mais do que aquilo que recebíamos. Mas a coisa não ficou por aqui. Vieram os governos que gastaram somas astronómicas em obras de fachada, em autoestradas, em estádios de futebol, em Expo´s, em Centros Culturais, de qualquer coisa, em Casas da Música, e, veio finalmente, a estocada final: as falcatruas do BPN; uma trama tão bem urdida que nenhum dos ladrões está na cadeia; alguns deles - diz-se à boca pequena - enriqueceram com a valorização das malogradas acções daquele banco dos ricos, e, pasme-se: pavoneiam-se pela vida pública quais seres impolutos! Depois, veio novamente o pedido de apoio monetário à Troika, e como ninguém dá nada a ninguém, os países mais ricos emprestam-nos o dinheiro, mas como é óbvio, fazem exigências; controlos periódicos, não vão os mendigos gastá-lo novamente onde não devem! Então, cortam-se nos ordenados dos funcionários públicos, inventam-se duodécimos para tudo e mais alguma coisa, cortam-se nas reformas dos pobres - sim, porque nas dos ricos, menos mil ou dois mil euros numa reforma de 10 mil, não aquece nem arrefece; suspende-se as pré-reformas, corta-se nas indemnizações por revogação do contrato de trabalho por mútuo acordo... E agora o seu inverso: aumentam-se os impostos, criam-se novos impostos dissimulados de taxas, etc., etc..
Depois de a criação de um governo minúsculo, aumentam-se os tachos: dezenas de imbecis imberbes acabam de ser nomeados para secretários de Estado, subsecretários de Estado, disto e daquilo... parece que só para o Ministério da dita Cultura, terá sido uma vintena, de uma vez. Depois, ou antes, descobrimos que o Estado não cortou nas tais gorduras: são às centenas as fundações e os observatórios; um sorvedouro dos impostos dos contribuintes, e que não servem para nada, a não ser, sustentar uma corja de sanguessugas de parasitas, que em nada contribuem para o bem comum! E, assim Portugal vai definhando pouco a pouco (ou será que é mais depressa?).  Entretanto, estamos outra vez a ser recordistas europeus: a taxa de desemprego está lá bem alta no pódio dos países que estão de tanga: em Dezembro de 2012 subiu para 16,5%, mas com perspectivas de atingir os dois dígitos! Para lá iremos...
E para gáudio da malta, temos um Primeiro-Ministro que sugere aos portugueses que emigrem... nem mais! E eles emigram, ah, emigram, cada vez mais, mas primeiro fazem os seus estudos à custa dos nossos impostos, depois, bem, depois vão aplicar o seu saber e mão-de-obra noutros países onde há mais e melhor emprego e salários dignos desse nome!
Entretanto, para aqueles em que a idade já não aconselha a novas experiências... lá nos vão entretendo com tricas partidárias, com falsidades, com cada vez mais ladroeira, com mais mentiras, com mais corrupção, com mais impunidade... tudo isto protagonizado por políticos imberbes (e também com cãs!) que nunca souberam o que era trabalhar na vida, mas que por não haver nenhum regime político melhor do que a democracia, lá estão. É que hoje em dia já ninguém minimamente bem informado acredita nos actuais políticos, a não ser os fanáticos - que os há, também na política -, porque eles são mentirosos, desonestos, incompetentes, propagandistas e demagógicos!



sábado, 15 de dezembro de 2012

As prendas do Menino Jesus do meu tempo


 
Lá fora a chuva quase não dá tréguas. O Inverno mal acabou de chegar. Os beirais da casa choram copiosamente numa sintonia digna de um grande maestro, só se desviando a cada rajada de vento que os faz ondular ora para um lado, ora para o outro. A grota vai aumentando de volume, porque o ruído desenfreado do líquido a abrir caminho em direcção à água-mãe tem pressa. Pela pequena vidraça embaciada das janelinhas vejo os bardos que se agitam, se dobram e redobram num desespero incessante. Na amassaria da cozinha, uma luz amarelo-doirada do candeeiro a petróleo requebra-se a cada sopro de vento que desce pela chaminé abaixo. O forno está aceso, o brasido resplandece num tom púrpura, e lá dentro, no tecto, a cor encarnada indica-nos que está quase no ponto de rapar o brasido cá para a  porta, para então a mãe pôr o pão de milho a cozer. É claro que ela teve primeiro que preparar a massa, amassá-la e deixá-la levedar, para então ser tendida antes de ir para o forno. Num instante, um enorme clarão invadiu toda a casa, que ao mesmo tempo estremeceu com o ribombar do trovão; até parece que o céu vai desabar sobre as nossas cabeças, por isso, a mãe apressa-se a apelar à misericórdia de Deus. Já há dias que nós fizemos o pedido das nossas ofertas ao Menino Jesus, deixando uns papelinhos debaixo das nossas almofadas para que Ele os viesse buscar durante a noite. Ah, esqueci-me de dizer-vos que hoje é véspera de Natal, por isso nós, miúdos estamos muito agitados para recebermos as nossas ofertas; sim, agora ainda são ofertas, porque isso de prendas há-de chamar-se só mais lá para diante. E o presépio, ainda não falei dele! Pois, o presépio já está feito há uma semana. Como não podia deixar de ser, fomos apanhar o musgo e as leivas para lhe dar um tom mais verdinho. Também não faltaram as figurinhas pequeninas em barro: o Menino Jesus, a Virgem Maria, São José, os Reis Magos, o burrinho, a vaca e as ovelhas (parece que daqui a alguns anos o Papa Bento XVI vai dizer num livro, sobre a “Infância de Jesus”, que no Evangelho "não se fala de animais no lugar onde Jesus nasceu", mas como bom pai, ainda vai tolerando que os animais façam parte do nosso presépio este ano). Mas vamos ao que nos interessa, que são as nossas ofertas. Afinal quando é que o Menino Jesus chega – perguntámos à nossa mãe - e vocês estão a perguntar, porque é que é o Menino Jesus e não o Pai Natal? A resposta é simples: isso é uma modernice que vocês adultos copiaram dos americanos e que há-de vir daqui a alguns anos! Então, ela mesmo ocupada com o pôr o pão no forno, aconselha-nos que nos deitemos, porque Ele só virá depois da meia-noite. Assim foi. Mas quase que não conseguimos adormecer; a sonhar acordados com as nossas ofertas. Apesar disso, lá adormecemos pelo meio dos alvos e gélidos lençóis de algodão. Passado pouco tempo, a mãe veio acordar-nos. O Menino Jesus já tinha vindo, e debaixo de cada uma das nossas almofadas havia um pacotinho de papel pardo com figos passados e um chocolatinho da marca Regina. Lá ficámos num frenesim, a dar dentadinhas pequeninas no chocolatinho, para que ele durasse muito tempo, e fomos comendo os figos passados, que sempre são pouco mais de meia dúzia. E daqui a pouco vamos voltar a adormecer, mesmo que as ofertas não tenham sido aquelas que tínhamos pedido ao Menino Jesus. É que o nosso Menino Jesus é pobre, por isso não nos pôde dar aquilo que  queríamos.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Banalização da Cultura nas Redes Sociais

As redes sociais como o facebook são um meio privilegiado para que todas as pessoas possam demonstrar aquilo que lhes vai na alma. Cultivo de franca amizade, partilha de afectos e emoções, troca de opiniões de agrado ou desagrado, de algo que lhes incomoda ou ofende, protestos, denúncias, apelos e, claro, muitas banalidades, futilidades e mensagens para todos os gostos, opiniões e sensibilidades. Contudo, no meio desta panóplia de temas, um, é pouco cultivado, o cultural, e mesmo esse pouco, não encontra eco como os restantes. É claro que não é por falta de conhecimento de quem sabe escrever, mas talvez por vaidade do que escreve; porque quem escreve bem é arguto, sabe como agradar e obter aplausos dos seus previsíveis fãs; como é óbvio não se dá ao trabalho de escrever assunto que não lhe alimente aquilo que erradamente se diz, o ego!
Faço um desafio a quem tiver a paciência de ler esta crónica: que analise o conteúdo, em termos culturais, dos assuntos que "merecem" maior número de "gostos" e depressa concluirão que desse ponto de vista, há temas que não têm um fio condutor nem obedecem àquilo que se aprende no primeiro ciclo: que um texto deve ter um princípio meio e fim.
É claro que com esta crónica não pretendo fazer críticas a ninguém (pois também eu não estou isento delas) mas tão só constatar aquilo que nos é dado ver no dia-a-dia; porque o país tende a desviar-se para a banalização da vida social, cultural e educacional, e esse facto incomoda!
Concluo: as redes sociais são um meio privilegiado para que todos possam divulgar os seus talentos, pensamentos, emoções ou protestos, porém, pouco apreciadas em termos culturais.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Canal Parlamento - Comissão de Segurança Social do Trabalho

Não sou um fiel seguidor do Canal Parlamento, mas hoje por mero acaso, encalhei no dito. Porque o assunto me suscitou interesse.
Estava reunida a Comissão de Segurança Social e Trabalho, que é composta por deputados do governo e da oposição. O assunto que naquele momento estava a ser discutido pelos iluminados representantes do povo, era o descanso compensatório por trabalho prestado nos dia feriados, sábados e domingos - tema sobre o qual já ouvimos falar. Os especialistas, reunidos em torno de uma mesa, falaram abundantemente de diversos artigos do malogrado Código do Trabalho. Trocaram impressões sobre as suas dúvidas e discordâncias acerca das alterações que o executivo pretende introduzir no dito diploma. Ao cabo de alguns minutos da minha atenção aos protagonistas, fiquei perplexo com a ligeireza com que os nossos representantes tratam assuntos tão importantes para a vida dos trabalhadores. Mais, fiquei estupefacto com a falta de conhecimentos técnicos e de uma argumentação minimamente sustentada por parte dos deputados que compõem esta Comissão! Ignoro se após a conclusão dos trabalhos da dita Comissão o assunto será ou não sujeito a discussão na Assembleia, contudo, agora percebo melhor as críticas de certos juristas quando dizem que as leis são mal feitas porque os deputados "não percebem nada de direito"... E eu acrescento: porque também muitos deles nunca fizeram nada na vida! Muitos deles nunca trabalharam por conta de outrem, não fazem a mínima ideia de qual o impacto que as suas inexperientes decisões vão ter na vida de milhões de trabalhadores!
Parafraseando Eça, abomino a "tibieza, a bulia e a inconsistência na tomada de decisões".
 
30 de Abril de 2012

Solidão

Longe, muito longe, por entre brumas
Canaviais, papoilas em flor
Por entre os trevos dos campos
Algures... um coração palpita
Na solidão de uma casa.

Enquanto a Terra gira em torno do seu eixo
Enquanto te enfadas com a tua sina
Um mundo lá fora continua indiferente
À tua dor que outros não sentem.

E tu que te atormentas dia após dia
Tu que vives nessa nostalgia
Ah! como te enganas...
Se pensas que a solidão é só tua.

Pára, e pensa. Quantos como tu
Que no meio dessa mole imensa
De seres humanos com que te cruzas
Vivem na mais negra solidão!?

Mas quando a dor for mais forte
Nessa triste e leda noite de insónia
Quando o silêncio for fonte de dor
O amanhã virá e o dia te sorrirá.


29 de Abril de 2012



Comemoração do 25 de Abril de 1974 (2012)

A notícia correu depressa, ou não estivéssemos num pequeno ilhéu lá para os lados do ocidente. Foi devagar, e ainda em surdina, com medo, muito medo e receio (não vão os ouvidos dos informadores da PIDE escutar o que se diz), que logo de manhãzinha foi passando de boca em boca. Alguém atento à rádio - sim porque a televisão no Arquipélago só se daria a conhecer de forma rudimentar daí a um ano -, foi espalhando a boa nova. "Disseram na Rádio que os militares fizeram um golpe de Estado". Tudo começou ainda no dia 24 de Abril pelas 22h25 com um dos sinais combinados pelos golpistas, com a canção E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho emitida na rádio Emissores Associados de Lisboa, que desencadeia a primeira fase do golpe de Estado. O segundo sinal foi dado à meia noite e vinte minutos quando a canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso é transmitida pela Rádio Renascença, que confirma o golpe e determina o início das operações. Depois do derrube do governo, os militares enviaram uma comunicação ao país para ser lida na RTP.
"Na madrugada do 25 de Abril o Movimento das Forças Armadas no decurso de uma acção conjunta, estabeleceu o controlo da situação política em todo o país após ter ocupado diversos pontos estratégicos, nomeadamente os ministérios, estações de rádio televisão e rádio difusão, aeroportos e fronteiras, o Movimento está cumprindo com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História, proclama à Nação o seu propósito de a libertar do regime que a oprime há longos anos..."
Foi assim, que aos microfones da velhinha RTP, a preto e branco, Fialho Gouveia lia a mensagem do Movimento das Forças Armadas, MFA, no dia 25 de Abril de 1974!

Foi com enorme emoção que aos dezassete anos, vividos sob o jugo da ditadura senti que algo de muito importante estava a acontecer, mesmo que ainda não percebesse muito bem do que se tratava e o que iria mudar a partir daquele inesquecível dia. O que quer que fosse, já sentia um alívio: foi como se me tivessem tirado um enorme peso de cima das costas, as grilhetas das pernas, a venda dos olhos, a mordaça...
Hoje, à distância de38 anos, muitas vezes me questiono: será que estamos a evoluir na democracia, ou por outro lado estamos a regredir? Acho que a segunda hipótese é a que melhor caracteriza estes tempos!...

Zita Amorim e Virgílio Toste gostam disto.

Base Francesa nas Flores

     Foi com imenso gosto e até alguma nostalgia que assisti à visualização dos vídeos "Opération Hortensia" na Biblioteca Pública...