terça-feira, 1 de maio de 2012

Solidão

Longe, muito longe, por entre brumas
Canaviais, papoilas em flor
Por entre os trevos dos campos
Algures... um coração palpita
Na solidão de uma casa.

Enquanto a Terra gira em torno do seu eixo
Enquanto te enfadas com a tua sina
Um mundo lá fora continua indiferente
À tua dor que outros não sentem.

E tu que te atormentas dia após dia
Tu que vives nessa nostalgia
Ah! como te enganas...
Se pensas que a solidão é só tua.

Pára, e pensa. Quantos como tu
Que no meio dessa mole imensa
De seres humanos com que te cruzas
Vivem na mais negra solidão!?

Mas quando a dor for mais forte
Nessa triste e leda noite de insónia
Quando o silêncio for fonte de dor
O amanhã virá e o dia te sorrirá.


29 de Abril de 2012



Comemoração do 25 de Abril de 1974 (2012)

A notícia correu depressa, ou não estivéssemos num pequeno ilhéu lá para os lados do ocidente. Foi devagar, e ainda em surdina, com medo, muito medo e receio (não vão os ouvidos dos informadores da PIDE escutar o que se diz), que logo de manhãzinha foi passando de boca em boca. Alguém atento à rádio - sim porque a televisão no Arquipélago só se daria a conhecer de forma rudimentar daí a um ano -, foi espalhando a boa nova. "Disseram na Rádio que os militares fizeram um golpe de Estado". Tudo começou ainda no dia 24 de Abril pelas 22h25 com um dos sinais combinados pelos golpistas, com a canção E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho emitida na rádio Emissores Associados de Lisboa, que desencadeia a primeira fase do golpe de Estado. O segundo sinal foi dado à meia noite e vinte minutos quando a canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso é transmitida pela Rádio Renascença, que confirma o golpe e determina o início das operações. Depois do derrube do governo, os militares enviaram uma comunicação ao país para ser lida na RTP.
"Na madrugada do 25 de Abril o Movimento das Forças Armadas no decurso de uma acção conjunta, estabeleceu o controlo da situação política em todo o país após ter ocupado diversos pontos estratégicos, nomeadamente os ministérios, estações de rádio televisão e rádio difusão, aeroportos e fronteiras, o Movimento está cumprindo com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História, proclama à Nação o seu propósito de a libertar do regime que a oprime há longos anos..."
Foi assim, que aos microfones da velhinha RTP, a preto e branco, Fialho Gouveia lia a mensagem do Movimento das Forças Armadas, MFA, no dia 25 de Abril de 1974!

Foi com enorme emoção que aos dezassete anos, vividos sob o jugo da ditadura senti que algo de muito importante estava a acontecer, mesmo que ainda não percebesse muito bem do que se tratava e o que iria mudar a partir daquele inesquecível dia. O que quer que fosse, já sentia um alívio: foi como se me tivessem tirado um enorme peso de cima das costas, as grilhetas das pernas, a venda dos olhos, a mordaça...
Hoje, à distância de38 anos, muitas vezes me questiono: será que estamos a evoluir na democracia, ou por outro lado estamos a regredir? Acho que a segunda hipótese é a que melhor caracteriza estes tempos!...

Zita Amorim e Virgílio Toste gostam disto.

quinta-feira, 22 de março de 2012

"Será que podemos mudar"

O texto "Será que podemos mudar?" do blogue, "Ver para além do olhar do Jesuíta João Delicado sj", baseia-se, na minha modesta opinião, na psicologia tradicionalista. A psicologia actual tem dado provas "científicas" de que é possível mudar a estrutura organizativa do nosso cérebro. Se assim não fosse, como explicar que alguém que tenha sofrido um trauma psicológico devido a uma forte emoção (violação, morte de um familiar, acidente grave ou que tenha sido testemunha de um crime violento) e tendo acompanhamento psicológico competente, possa voltar a ter uma vida normal e saudável?! Há exemplos básicos que se aprendem na disciplina de psicologia; lembro-me de um: uma mãe que deu à luz dois gémeos monozigóticos em que ambos receberam a mesma carga genética (genótipo), que lhes vão potenciar determinadas características físicas e de personalidade, estes dois gémeos foram afastados à nascença, tendo crescido ambos em países diferentes, logo, o fenótipo, que é a relação entre as informações hereditárias e de factores ambientais e sociais, determinou personalidades diferentes! A informação genética que recebemos dos nossos progenitores, não é determinante para formar uma determinada personalidade! Há outros factores que interferem na estrutura organizativa do nosso cérebro: a sociedade (o meio) em que vivemos, a educação que temos, o clima, entre outros. Nós, tal como todos os outros mamíferos, aprendemos por imitação, logo, isto é modelação!
Já que falamos de modelos, normalmente os nossos modelos são os nossos progenitores, ou pais adoptivos, mas não só, porque nós somos muito mais aquilo que a nossa sociedade nos transmite, do que aquilo que herdamos nos nossos genes! Mais, há vários casos de crianças selvagens que foram estudados e que determinaram que pelo facto de essas crianças não terem recebido estímulos numa determinada idade, nunca puderam sair desse estado selvagem na totalidade! Isto prova, que ao nascermos estamos muito próximos dos outros mamíferos, em termos de desenvolvimento cerebral! E é a partir daí que vamos primeiro formando vínculos afectivos com os nossos pais, sejam eles os nossos progenitores, ou pais adoptivos, e depois, vamo-nos "modelando" no contacto com os outros. Isso é uma mudança!
Dito isto, "Será que podemos mudar?" A resposta é sim!

quinta-feira, 8 de março de 2012

O papel da Igreja Católica - Origem do Registo Civil em Portugal

A origem do registo civil remonta à Idade Média, tendo surgido por acção da Igreja católica, na medida em que foram os párocos os primeiros a criar para os fiéis um registo do estado civil das pessoas, sob a forma de assentos paroquiais, com o intuito de facilitar a prova dos estados de família ligados a certos sacramentos (baptismo, matrimónio e óbito) e de documentar o cumprimento dos sufrágios fúnebres.

Foi com o Decreto de 16 de Maio de 1832, que o registo civil conheceu a primeira providência legislativa e em que o Estado reconheceu a vantagem de tornar extensiva a todos os indivíduos a prática da Igreja relativamente aos católicos, bem como a necessidade de aproveitar a sua iniciativa, subordinando a realização do registo a princípios jurídicos uniformes, que assegurassem a sua regularidade e fiscalização.

Contudo, as coisas não terão corrido bem para o lado dos administradores do concelho (representante do governo junto de cada um dos municípios do país), pelo que a tarefa terá voltado para a responsabilidade dos párocos.

Foi então a partir de 1911, já no regime republicano, que os registos de nascimento, casamento (civil) e óbito - até então criados pela Igreja católica - passaram para a responsabilidade do Estado. Daí para cá, foram sendo criadas alterações às primeiras leis, até chegarmos ao ponto de hoje haver inclusivamente listas de nomes oficiais autorizados e não autorizados em Portugal; isto grosso modo.

Fonte: Instituto dos Registos e do Notariado

A explicação para os nomes próprios tradicionais

Por que razão nos baptizaram com os nomes de: Maria, José, João, António, Francisco, Conceição, entre muitos outros nomes bíblicos?

O Concílio de Trento aconteceu entre 1545 e 1563. O propósito do Concílio de Trento era fazer frente à Reforma Protestante, (Contra-Reforma) reafirmando as doutrinas tradicionais e arrumando a própria casa. Portanto houve duas reacções distintas, uma na área teológica e outra na área vivencial. Um dos papas teria confessado que Deus permitiu a revolta protestante por causa dos pecados dos homens, "especialmente dos sacerdotes e prelados".

O Concílio de Trento foi convocado pelo Papa Paulo III, a fim de estreitar a união da Igreja e reprimir os abusos, isso em 1546, na cidade de Trento, no Tirol italiano. No Concílio tridentino os teólogos mais famosos da época elaboraram os decretos, que depois foram discutidos pelos bispos em sessões privadas. Interrompido várias vezes, o Concílio durou 18 anos e o trabalho só terminou em 1562, quando a suas decisões foram solenemente promulgadas em sessão pública.

No Concílio de Trento, ao contrário dos anteriores, ficou estabelecida a supremacia dos Papas. Assim é que foi pedido a Pio IV que ratificasse as suas decisões.

Os primeiros países que aceitaram incondicionalmente as resoluções tridentinas foram: Portugal, Espanha, Polónia e os Estados italianos. A França, agitada pelas lutas entre católicos e protestantes, demorou mais de meio século para aceitar oficialmente as normas e dogmas estatuídos pelo Concílio, sendo mesmo o último país europeu a fazê-lo.

Este Concílio teve especial importância para os pesquisadores de genealogia devido a uma das suas resoluções, esta determinava que toda criança, para ser baptizada na Igreja Católica deveria possuir um nome cristão e um sobrenome de família, desta forma, as famílias que ainda não o possuíam foram obrigadas a assumir o termo que os identificasse; o uso de sobrenomes familiares foi então implantado definitivamente.

Fonte: www.benzisobrenomes.com

Aqui chegados, é mais fácil percebermos por que razão os nossos ascendentes colocavam ("eram obrigados") nomes e sobrenomes cristãos aos seus descendentes. Situação esta que se arrastou até ao Século XX, e resquícios na actual centúria
.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O incesto entre Carlos da Maia e Maria Eduarda - a catástrofe inevitável


O epílogo dramático desta história magistralmente criada por Eça de Queiroz, encerra com um encontro envolto num clima de idílica sensualidade!

"... Ele tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho, a que percebia a forma e o calor suave, através da seda leve: e ali esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, num entorpecimento onde toda a vontade e toda a consciência se lhe fundiam, deixando-lhe apenas a sensação daquela pele quente e macia, onde a sua palma pousava. Um suspiro, um pequenino suspiro de criança, fugiu dos lábios de Maria, morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha dela, que o entontecia, terrível como o bafo ardente de um abismo, escancarado na terra a seus pés. Ainda balbuciou:«Não, não...» Mas ela estendeu os braços, envolvendo-lhe o pescoço, puxando-o para si, num murmúrio que era como a continuação do suspiro, e em que o nome de «querido» sussurrava e tremia. Sem resistência, como um corpo morto que um sopro impele, ele caiu-lhe sobre o seio. Os seus lábios secos acharam-se colados, num beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a furiosamente, esmagando-a e sugando-a, numa paixão e num desespero que fez tremer todo o leito."

Queiroz, Eça - Os Maias, p. 658 Edição Livros do Brasil
P.S. Eça de Queiroz, nome completo José Maria de Eça de Queiroz, nasceu em 25 de Novembro de 1845 na Póvoa de Varzim (Norte de Portugal), morreu em Paris, França, em 16 de Agosto de 1900
Foi um dos maiores escritores portugueses. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Iniciou a sua carreira como advogado, foi também diplomata, mas foi sobretudo escritor. Escreveu inúmeras obras, entre elas: "O crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878), Os Maias (1888) e A Cidade e as Serras (1901 - publicação póstuma).

(O breve resumo acima, é o culminar de uma relação que se desenvolveu entre um casal  - que veio a descobrir que afinal eram irmãos, filhos dos mesmos pais - que por razões adversas viveram e cresceram sem saberem um do outro, mas que por obra do acaso se vieram a encontrar um dia.

domingo, 27 de novembro de 2011

Curiosidades sobre Fernando Pessoa

Às três horas e vinte minutos da tarde de 13 de Junho de 1888, nasce em Lisboa Fernando Pessoa. Filho de famílias da pequena aristocracia, do lado paterno e materno, o pai, Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, era funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do Diário de Notícias, e a mãe, Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, era natural da ilha Terceira nos Açores. A escolha do nome, António, foi para homenagear Santo António, de quem a família achava que havia uma ligação genealógica com Fernando de Bulhões, nome de baptismo de Santo António, tradicionalmente festejado em Lisboa a 13 de Junho, dia em que Fernando Pessoa nasceu. O poeta que propunha ser um supra Camões e que ainda hoje é estudado por milhões de pessoas por todo o mundo, tinha medo de trovoadas, mais propriamente relâmpagos. Quando era apanhado na rua por uma trovoada, não hesitava em meter-se por uma porta qualquer adentro e esconder-se debaixo de uma mesa...
Verdade ou não, o que é facto é que nos deixou estas estrofes, num dos seus heterónimos - Alberto Caeiro

IV - Esta Tarde a Trovoada Caiu

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.

Consultas: Wikipédia

Base Francesa nas Flores

     Foi com imenso gosto e até alguma nostalgia que assisti à visualização dos vídeos "Opération Hortensia" na Biblioteca Pública...